quinta-feira, 2 de abril de 2009
Cada grito que ela dava, me obrigando a ir até a varanda, eu pensava em passar na cozinha, pegar a faca e matá-la. É um pouco cruel, mas o grito dela vinha na minha cabeça de forma provavelmente muito pior do que era, mas por aqueles quatro segundos de berro, muito mais alto que qualquer outro, a minha vontade era ir à cozinha, pegar uma faca e matá-la. Não o fiz. Ia à varanda, como me era obrigado e olhava lá para baixo, procurando algum de seus falsos amigos e se eu os achasse, teria de descer para abrir o portão. Ela estava dando uma festa. Pior que apenas uma festa: era uma festa onde viriam todas as pessoas que me viram quando era menor (e gostam de descrever o meu antigo tamanho apontando para o chão, como se algum dia eu pudesse ter tido o tamanho de uma espiga de milho), pessoas que me viram rindo, socializando, brincando, correndo. Sinto vergonha de ter sido criança, de ter sido tão inocente e tão idiota. Cheguei na varanda. O chão estava frio, um pouco úmido, tinha acabado de chover. Sem grade, com o chão molhado, aquela varande era idela para alguém escorregar e cair lá de cima. Cair. Olhei, procurei os malditos mercenários mas não vi nada, nem ninguém. Vi uma tremenda paz e tranqüilidade, em meio a neblina e toda a umidade. Ao me debruçar um pouco sobre o ferro que era a única coisa que me impedia de já ter morrido, olhei para o portão interno do prédio, também não havia ninguém, só aquela mesma paz. Em uma fração de segundo, ainda debruçado sobre o ferro, eu sentia uma enorme e devastadora vontade de pular. Sim, cair, me jogar, morrer. Era isso que eu queria. Sempre quis, mas agora a vontade tinha aumentado. Eu queria sentir aquela adrenalina, o medo, a angústia, o arrependimento, a dor, o sofrimento, a alegria, a tristeza, o alívio, o sufoco, a vida, a morte, eu queria sentir tudo. Uma explosão de sentimentos, como um tremendo orgasmo, uma extâse dolorosa, uma profundidade intraduzível, incapaz de ser descrita até mesmo pelos mestres da literatura, com décadas de experiência. Queria sentir aqueles dois segundos decisivos passarem tão lentamente que, em pleno ar, sentiria tédio, de tanto que o chão demorava a chegar. É, queria morrer. Queria não viver, mas tinha medo do que viria depois, até mesmo se o depois for nada. Tenho medo de virar pó, de ir pro céu, de ir pro inferno, de encontrar buda, algum deus grego, alá, tenho medo de ir pra algum lugar pior, tenho medo de ser enganado depois da morte, tenho medo de não me livrar dos meus problemas após a morte. Tenho muito medo do infinito, da eternidade. De ficar morto pra sempre. Isso é muito tempo. Tenho medo de ficar entediado na morte. O quão é patético é isso ? O quão patético é querer morrer e ter medo das possibilidades ? Não vou me matar. Hoje, pelo menos, não. Tenho uma festa para anfitriar. Meus amigos estão chegando.
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VOCE ESCREVE MUITO BEM
ResponderExcluirpqp
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSó tem um personagem na história inteira. É a mesma pessoa. Odeio explicar. ¬¬
ResponderExcluirsinto saudades tuas, de teus devaneios, seus belos textos, sua sinceridade comigo, e seu pensamento de mundo, sua companhia. Você faz muita falta. Vejo que não anda melhor ai, continua pra baixo. Queria poder te animar. :(
ResponderExcluirmano u write beautifully. Dark but beautiful. I hope you are okay. I hope you are just tripping...and not upset! I am always here for you. Continue writing! LUV YA
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